“Por um lado, a arte é aquilo que, de uma maneira que lhe é própria, interrompe as coordenadas usuais da experiência sensorial do mundo. Por outro lado, justamente por possuir essa potência de desconcerto, arte é capaz de reconfigurar os temas e as atitudes passíveis de serem inscritas em espaços de convívio e partilha. Nesse sentido é impossível separar a arte da política”
Recomeço a escrever aqui sob um discurso de Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos para o tema da última Bienal Internacional das Artes de São Paulo, a 29a, que foi Arte e Política. Porém, fujo um pouco da Arte e vou para a Política. Apesar de até agora esse blog ter feito em função de anúncios e reflexões sobre Arte, a minha última experiência pessoal trabalhando na Bienal, me fez perceber a importância da discussão política.

Arte E Política na obra de Cildo Meireles - "Quem Matou Herzog?"
E neste discurso dos dois curadores da última Bienal, admito que não só aceito como também concordo. Mas, como sempre é de se esperar as exclamações, este foi um dos maiores alvos de discordância do público e crítica. Não sei se Arte e Política foi interpretada como panfletária, mas algo não agradou, muitas pessoas “fugiam da raia” e se incomodavam profundamente com essa “mistura”. O que me parece, é que as pessoas, e nela incluo os brasileiros, fogem da discussão política.
De fato, essa própria discussão política não é algo ao alcance das pessoas. A discussão é completamente passiva, vemos em debates na TV, na internet, jornais, mas é quase nula a oportunidade de cidadãos sentarem e, além de terem o direito de opinião, terem o direito de serem ouvidos. O que acaba acontecendo é um dos fenômenos recentes e muito do curioso, que são as pessoas se escandalizando via twitter. Vemos muitos comentando, chegando aos “Topics Trendings”, vira até notícia e acaba.
A partir desse próprio fenômeno, ouso reforçar a ideia de que uma discussão política sem acesso desestimula a sociedade. Ouvimos o discurso de que “nem adianta mais discutir política” ou que as coisas “não tem mais jeito”. Então, o máximo que acontece são 140 caracteres inconformados, sentados numa cadeira e…só.
Não era de se surpreender então que numa Bienal de Artes com o tal tema, houvesse tanta repulsa. Política é chato, sem solução, não tem mais jeito e por aí vai. Não tem porque pensar sobre isso e criar alguma reflexão. Dói demais ou é de grande preguiça entender porque o artista Ronald Duarte esguichou tinta vermelha nas ruas do Rio de Janeiro [ http://bit.ly/gsKDlo ] ou porque Gil Vicente enfiou uma faca no pescoço do Lula [ http://bit.ly/eBpeIE ] – o máximo é achar tudo isso muito legal e alternativo, sem pensar o que existe dentro ou por trás deste discurso.
Na verdade, acho que é de se surpreender sim. Quando finalmente convidam as pessoas a refletirem e terem algo a dizer sobre Política, todos fogem.
Não, não é de se surpreender. Mesmo assim, ainda é triste. Ver essa geração criada para não pensar, para ser cômoda e achar que todas as coisas estão bonitas. E quando não estão, dizerem “ah, não tem jeito…”.
Será mesmo que Há sempre um copo de mar para um homem navegar? Se há, esses homens estão o usando para se afogar.






